Após algumas horas no rio, tentando pescar o almoço para o primeiro fim de semana do mês, e sem obter êxito, Juliana Augusta da Silva Magalhães, retornou para sua casa, localizada na parte alta da comunidade, em terreno arenoso, chamado de Areão, para diferenciar das moradias próximas às balsas e às pousadas no Porto. Insatisfeita com o resultado, mas sem alternativa, começou a preparar um arroz com mandioca. Mascarou a fome e deixou a panela guardada no forno, para servir de janta aos netos, que retornariam da aula acompanhados do pôr do sol.

Fé e esperança

Alimento de cada dia

Juliana é uma mulher muito religiosa, costuma rezar todos os dias, para pedir pela proteção de sua família

Os peixes que não são vendidos para os turistas, são armazenados para servir de alimento para a família

No Porto da Manga, são oferecidas aulas em período integral de terça a sexta-feira para crianças e jovens da comunidade, do primeiro ao nono ano, em dois apartamentos de uma pousada, alugados pela Prefeitura de Corumbá. Uma turma contempla alunos do primeiro ao quinto ano, e outra do sexto ao nono. O ensino é precário, carece de materiais escolares e a falta de estrutura compromete o processo de alfabetização.

A ausência de uma escola apropriada faz com que as mulheres busquem por vagas em instituições próximas à região. A Escola Fundação Bradesco Bodoquena é uma das alternativas encontradas para a educação da comunidade. O local, inaugurado em 1986, fica a 125 km do Porto da Manga, atende em regime de internato, com aulas regulares e atividades agropecuárias, através do ensino prático sobre o meio rural, buscando a inserção dos jovens cada vez mais cedo nos trabalhos de subsistência.

Escola Fundação Bradesco no MS

Para Juliana e as mulheres ribeirinhas do Porto da Manga, é uma oportunidade de ensino de qualidade, mesmo que signifique ficar longe dos filhos e netos por muito tempo, já que só podem retornar para casa nos feriados e em datas comemorativas.

Os netos de Juliana enfrentam as dificuldades do aprendizado na comunidade, juntos a outros alunos, de idade entre seis a treze anos, que são atendidos por apenas duas professoras, que encaram as viagens semanais de Corumbá até a região para ministrar as aulas. Durante os intervalos, os alunos recebem merenda e são encaminhados para casa no fim do dia. Enquanto as ribeirinhas trabalham com a coleta de isca viva, e os maridos são guias e pilotos para os turistas, as crianças precisam estar sob os cuidados de terceiros, o que torna ainda mais necessário o ingresso nas escolas.

Juliana tem 60 anos e vive há 26 na comunidade. É uma senhora alta, de braços e pernas cumpridas, cabelos crespos e olhos escuros. Traz linhas de expressão em seu rosto que marcam a longa trajetória de vida, em que predominam as dores de grandes perdas, mas da qual muito se orgulha.

Juliana nasceu em Anastácio e permaneceu no município até o casamento. Logo, mudou-se para o Porto da Manga, onde o marido decidiu trabalhar com a pilotagem. Teve quatro filhos e, sempre que pôde, tentou privá-los das atividades árduas do cotidiano. Colocou a educação como prioridade e ofereceu condições para que pudessem construir a vida longe daquele ciclo. Atualmente, vive apenas com três netos, que foram deixados pelos pais após a separação.

Todo mundo seguiu seu rumo porque todo mundo se casou. Foi tudo embora. Minha filha mora em Campo Grande. O outro mora ali perto de Nioaque e o outro mora em Corumbá, que é o pai das criança. O outro tá no rio de Janeiro, que é fuzileiro. Aqui é só eu e os três netos, porque meu filho e a mãe das criança se separaram e ela entregou eles prá mim. Eles são minha vida. Sei bem que não é pra sempre, mas é uma companhia. A gente cria pro mundo.

Remo

Juliana faz os próprios remos, que usa no barco para ir pescar e coletar as iscas

Juliana acorda com o cantarolar dos galos, pontualmente às 4h, e trabalha durante 10 horas por dia com a coleta de iscas e com a pesca. Dedica as horas restantes para os afazeres domésticos e cuidado das crianças. Após a morte do marido, ficou ainda mais difícil aguentar a rotina da dupla jornada. A escola é um meio de escape da assistência integral aos netos, mas, para outro tipo de cuidado, aquele que provém do trabalho no rio, para garantir o alimento.

— Bom, meu marido morreu faz três anos. Então é só eu, Deus, e as três criança. Eu saio... de manhã, eu saio sete horas. As criança vão pra escola e eu... Porque eles vão é período integral né, que eles ficam. Aí eu volto quando eles voltam da escola. Aí já to aqui de volta.

O cotidiano das mulheres ribeirinhas do Porto da Manga é marcado pela vulnerabilidade social. As histórias de jovens meninas que engravidaram, e acompanharam os maridos até a região em busca de trabalho, são comuns e não causam surpresas quando compartilhadas entre os membros da comunidade. As mulheres se adequam às condições de estudo oferecidas no local. São vítimas do Estado, que não protege os direitos básicos e fere a Constituição, interrompendo o acesso à educação de qualidade.

Uma das mais jovens coletoras de isca da comunidade, Catylene Barbosa Garcia, apelidada de “Nega” pela família e amigos, tem 19 anos e, apesar de ter concluído o Ensino Fundamental, não teve condições para continuar os estudos fora da região. O sonho de cursar uma faculdade foi interrompido por sua própria mãe, Rosália Fernandes, de 40 anos, que insistia em não criar esperanças do que para ela seria impossível de proporcionar. A família é grande, muitas pessoas para alimentar e cuidar. Estudos são colocados em segundo plano porque em primeiro está a sobrevivência e, portanto, as duplas jornadas de trabalho, na coleta e em casa, com os afazeres domésticos e cuidado familiar.

Nega tem dois filhos, o primeiro nasceu quando tinha apenas 16 anos. Foi para o rio pescar e capturar iscas durante ambas as gestações, até entrar em trabalho de parto. Os bebês nasceram saudáveis, embora Nega tenha enfrentado as difíceis situações rotineiras, que intensificaram as dores no corpo, sentidas pelas longas jornadas.

Mãe aos 16

Infância na Manga

Nega teve o primeiro filho aos 16 anos e trabalhou durante toda a gravidez para ajudar no sustento da casa

Sem atividades para o lazer, as crianças brincam com o pouco que têm e são inseridas na rotina de trabalho muito cedo

Seu olhar consegue revelar além das palavras, ditas em frases curtas. Tímida e contida, não se atreve a reclamar do modo de vida que leva, agradece apenas por ter o alimento de cada dia, o amor dos pais e do marido, que trabalha como piloto e contribui com a renda da família, que chega a um salário mínimo, nos meses em que a venda de iscas é considerada boa.

Mãe e filha saem para trabalhar sempre juntas. Na maioria das vezes, vendem as iscas para os turistas hospedados na própria pousada da comunidade, porque não conseguem fazer a venda em outros municípios, por falta de transporte. Enquanto elas telam, as crianças ficam sob os cuidados de uma amiga de Rosália, que recebe alguns trocados pelo trabalho.

Rosália é casada e mora com o marido e cinco filhos. Apenas uma menina conseguiu continuar os estudos porque o marido já residia em Corumbá. Os outros concluíram o nono ano e logo a aprendizagem foi obstruída por necessidades maiores. Quando não recebem muitos turistas na comunidade, o dinheiro que obtêm é insuficiente para pagar até mesmo a energia da casa.

A pequena construção onde moram tem poucos eletrodomésticos, uma televisão de tubo, um freezer utilizado para a conserva dos peixes e alguns utensílios de cozinha. Ainda assim, as contas são exorbitantes. Os altos valores cobrados não são condizentes aos usos. Para que a situação seja resolvida, precisam fazer várias viagens até o município mais próximo, o que demanda gastos com transporte.

Da onde a gente vai tirar dinheiro prá pagas as contas? E o frete até Corumbá? Nem tá saindo muito peixe e tá vindo pouco turista. Um dia, ficamo o dia inteiro pra pegar isca e só saiu 60 caranguejo. Isso não é nada. Não compensa. Não podemo gastar com energia se não tem nem direito o que comer. Que cortem a luz.

Com o passar do tempo, a desesperança foi acomodada em sua vida e hoje abre mão de um direito para conseguir outro. Rosália prefere a comida para a família a energia elétrica. A conquista pela instalação das redes de energia na comunidade, com auxílio da Associação de Moradores do Porto da Manga por meio do projeto do governo federal, Luz para Todos, em 2007, é mínima quando comparada a necessidade básica da família de prover alimento para a sobrevivência.

Além dos direitos fundamentais não atendidos, e muitas vezes esquecidos pelas políticas públicas retrógradas e elitizadas, que resultam em um cenário de descaso, algumas mulheres ribeirinhas são condicionadas a abrir mão dos direitos até então reconhecidos. A luta por melhorias existe, mas quando as perdas são maiores que os ganhos, as forças se esgotam e se limitam ao mundo pequeno, cercado por águas onde o trabalho se faz presente até o amanhecer das horas.

O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e

suas latas

Seu olho exagera o azul.

Todas as coisas deste lugar já são comprometidas com aves

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio

Quando o rio está começando um peixe

Ele me coisa

Ele me rã.

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.

— Manoel de Barros

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