Sentada em sua cadeira de ferro avermelhada, desgastada pelo tempo,

Maria do Carmo de Souza, senhora de olhos escuros como jabuticaba, cabelos grisalhos e altura média, apreciava o horizonte das formas e das cores que circundava a planície, revelada pelo inverno que chegara. Formas de árvore, barco, remo, e cores de azul, amarelo e verde. A nova estação desvanecia a cortina de chuvas e era introduzida com o canto dos ventos frios. Os pequenos raios de sol iluminavam as folhagens no chão, que Maria afastava com os pés enrubescidos, marcas da vida entre a terra e a água.

Era uma manhã de sábado atípica. A anciã, de 79 anos, observava o relógio, que apontava 8h, horário rotineiro de sua pesca. A temperatura do rio, no entanto, a desencorajou de enfrentar mais um dia de trabalho. Maria vestia um agasalho rosa com capuz e uma saia, que repuxava com as mãos e, ao mesmo tempo, cruzava e descruzava as pernas na tentativa de amenizar os calafrios.

Às margens do rio Paraguai

Maria resgata histórias da vida à beira do rio

Se der uma esquentada, eu vou sair prá pescar prá comer. Eu gosto de pescar. Falam prá eu ficar em casa, mas quando a água tá quente, eu pego minhas remadas e vou. E saio prá pescar sozinha, mas não vou prá muito longe. A gente que tá ficando velha, o braço não aguenta remar.

Maria suavizou a tremedeira dos pés e das mãos quando cobriu as sensações com as lembranças de sua infância. Foi como se o resgate das memórias enterradas, trouxesse um calor para a alma. Lembranças de uma longa vida à beira do rio, repleta de fatos caóticos, inusitados e surpreendentes, uma verdadeira riqueza aos contadores de história, e uma eterna nostalgia para Maria, de um tempo que não tem volta.

A filha de pescadores foi levada com dois anos de idade para às margens do rio Paraguai, na região a cerca de 60 km de Corumbá, município onde foi registrada em cartório, no dia primeiro de novembro de 1943, cinco anos após a data original de seu nascimento. Na capital do Pantanal, vivia junto aos pais e cinco irmãos mais novos, em condições insalubres e de extrema pobreza. A vulnerabilidade social a que estavam condicionados refletiu na falta de oportunidades de trabalho, educação e assistência à saúde.

Na busca por atividades para prover condições mínimas para sobrevivência, a família de Maria colocou quimeras por dias melhores num pequeno barco, e seguiu o curso d’água, em direção a novos horizontes. Sentiram-se guiados pela cor da esperança, o azul infinito do céu, e desembocaram em uma região ribeirinha, sendo uma das primeiras famílias a chegar ao local, hoje conhecido como Porto da Manga.

Por ser a filha mais velha, auxiliava seus pais nas atividades de subsistência, como a pesca e a agricultura. Aos poucos, foram suprindo as necessidades básicas da família, construíram uma pequena casa, com um único cômodo, que era circundada por uma horta improvisada. Plantavam o suficiente para sobreviver aos ciclos do Pantanal e, durante os períodos de cheia, dependiam exclusivamente da pesca.

A cor da esperança

Casa abençoada

A família de Maria seguiu o horizonte azul em busca de melhores condições de vida

A senhora guarda imagens de santos em casa, para os quais reza todas as manhãs por proteção

Dentre as lembranças que Maria resgata e relata com um sorriso reluzente, está num canto especial da memória o tempo em que seu pai trabalhou para o sertanista brasileiro Marechal Cândido Rondon. Incumbido de construir uma linha telegráfica entre Cuiabá e Porto Velho, Rondon presidiu a Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, missão responsável por gerar empregos para muitos homens destas regiões, que ajudavam na limpeza das estradas para receber as redes de comunicação.

Têm uns setenta anos já que moro aqui. Eu cheguei aqui eu tava com dois anos. Papai trabalhava com Marechal Rondon. Meu pai fez muita coisa com ele e era pescador também. A gente plantava tudo aqui, mandioca, batata, feijão, tudo quanto é planta prá comer, quando dava. Antes, Marechal Rondon que trazia prá gente, saco de comida.

Maria traz do baú da memória imagens das mangueiras frondejantes, que encobriam a vista das janelas de sua casa para o rio. Porto da Manga foi o nome dado por Rondon, não pelos frutos que os irmãos de Maria adoravam, mas como referência ao antigo cais de concreto, construído em 1972 pela Petrobras, para realizar o embarque e desembarque de gado. Após longos períodos de cheia no Pantanal, permaneceu no local apenas a “manga”, ou curral, que abrange toda a área adjacente do rio Paraguai. Atualmente, é onde atracam os barcos e a balsa transportadora de veículos, que faz a ligação entre a região e a Estrada Parque Pantanal.

rio Negro

rio Abobral

rio Miranda

rio Paraguai

Estrada Parque Pantanal

Rondon, o reconhecido desbravador de terras brasileiras, é mantido nas lembranças de Maria e de todos que vivem na Manga. O antigo posto telegráfico, instalado pelo militar na comunidade, foi reformado e, apesar de estar desativado, é um atrativo ponto de encontro, principalmente, nas tardes tomadas pelo mormaço, amenizado pela sombra propiciada na construção elevada por palafitas.

Nos períodos mais difíceis para a pesca, Maria recorda de quando viajava com seu pai de barco a remo, para trabalhar com o transporte de gado nas fazendas do antigo estado de Mato Grosso. Como recompensa, ganhavam sacos de alimentos para sobreviver até a próxima viagem. Durante as jornadas, as noites eram sempre mais longas que o dia. Acampados à luz e ao silêncio do luar, Maria e seus irmãos utilizavam de suas imaginações para fazer das formas das nuvens, seus personagens de contos para dormir. As histórias eram passagens saudosas vividas na casa à margem do rio.

Cercada pela rotina das águas, e pela sobrevivência condicionada ao meio ambiente, não teve tempo, nem a oportunidade, de frequentar uma escola, mas aprendeu os verbos como um sabiá aprende a cantar. Hoje entende a língua mais difícil de todas, a da natureza. Lê o céu, os ventos, a água, e o gorjeio dos pássaros.

Inserida no ciclo da vida pantaneira muito jovem, é detentora de saberes tradicionais, que foram repassados para além de seus filhos e netos.

A pescadora, benzedora e parteira, é o embrião da luta pela sobrevivência que está presente no cotidiano das mulheres ribeirinhas do Porto da Manga.

Eu aprendi de tudo... pescar, benzer, parir. Um dia, mamãe tava com dor... Não é minha mentira, é minha grande verdade... Mamãe ia parir o mais novo, e eu fiz ele nascer. Cortei o cordão dele, cobri ele com véu e enrolei ele com pano... A gente tava sozinha, a parteira morava longe e o único morador também morava longe daqui. Aí eu matei um frango pra nóis comer. Fiz frango com fubá. Cozinhei bem e fiz pra mamãe. Aí matei outro frango e dei pros outros irmãos.

As recordações de Maria saltaram para os anos de sua adolescência, quando mais famílias chegavam à comunidade ribeirinha, formando laços fraternos entre os membros. O povoado logo começou a organizar eventos festivos, religiosos em sua maioria, para celebrar os vínculos que ali fizeram. Durante muitas madrugadas serenes, a jovem Maria dançou e festejou em grandes barracões, nos bailes para São Sebastião, o santo padroeiro da comunidade.

— Eu ia no baile. Aqui era um barracão grande. Mamãe fazia festa prá São Sebastião. No dia de sábado mamãe fazia baile prás meninas. E tudo era unido. Ninguém brigava com ninguém. Hoje em dia, as criança que vai crescendo já enfia a cara na pinga e, igual grande, começa a brigar... Só sei que minha vida agora é só uma vida perturbada. Só preocupação. Tô cansada de lutar e não tenho ajuda, porque se o governo deixasse uma segurança aí, a gente tinha um descanso na cabeça.

A introdução das drogas, trazidas de Corumbá e da Bolívia, por membros da própria comunidade e, muitas vezes, pelos turistas, preenche o ócio dos moradores, que carecem de atividades para o lazer. A calmaria das mulheres é perturbada quando seus filhos e maridos se tornam dependentes dos narcóticos. Com a voz trêmula, Maria se referia a este cenário com tristeza e relembrava de quando precisou cuidar de seu marido, após algumas bebedeiras noturnas com os viajantes.

Maria foi casada durante 20 anos e, até hoje, não sabe se o marido está vivo. Uma vez foi lhe dito que um acidente de trabalho causara sua morte, em uma propriedade rural distante da comunidade. Por estar com os filhos ainda muito pequenos, nunca teve a oportunidade de viajar para a fazenda. Seus braços estavam cansados pela exaustiva rotina e não aguentava remar por muitos dias.

Bar e turismo

Problema social

Turistas frequentemente pagam bebidas para os homens da comunidade e incentivam o consumo

Muitos jovens e adultos da comunidade tornaram-se dependentes do álcool

— Faz uns 50 anos que vivo sozinha, se virando nessa vida. Diz que meu marido faleceu. Foi trabalhar lá pro Rio Verde e de lá veio uma carta chamando eu pra ver se era ele ou não. Eu não fui não. Meus guris tavam pequeno ainda. Eu tô desconfiada que ele fugiu, porque ele era nó cego... Tava junto comigo e tava junto com uma outra, e eu com barriga do Francisco.

Ao som de um Jukebox antigo, os moradores também passam os finais de semana nos bares da comunidade

Jukebox

As drogas, assim como outros elementos provenientes do meio urbano, são resultado do processo de globalização, que alterou as relações sociais e moldou a economia da região às demandas do mercado global. As mulheres do Porto da Manga, ao longo do tempo, aprimoraram as técnicas de trabalho para garantir a renda familiar e atender o mercado de turismo, que teve sua ascensão no Pantanal entre as décadas de 1980 e 1990.

Dias pacíficos

— Antes não tinha turista, só tinha as fazenda. Agora não tem nada pra se divertir. Se sair, o pau quebra. Eu não sei porque tem muita briga, acho que é por causa da droga. Hoje em dia, a turma bebe e acha que tá melhor que todo mundo. Até criança acha que é melhor que todo mundo. É muito triste ver a Manga desse jeito aí. Quando saiu a policia daqui, já teve quantas mortes aí... de menor. Mas, eu tô vivendo... Ensinei tudo esses meninos e meninas daí, a pescar, telar...

Maria deseja que a comunidade seja um local pacífico novamente, para os filhos e netos viverem

Os ensinamentos sobre as práticas laborais foram passados a comunidade pela anciã, reconhecida e respeitada por seus saberes tradicionais. O sorriso tímido que refulgia em seu rosto era reflexo do orgulho de ser água que corre entre pedras, parte do ciclo da vida pantaneira. Sorriso acanhado porque boas memórias não eram suficientes para disfarçar o retrato que trazia em suas palavras, puxadas pelo vento, do cotidiano das mulheres ribeirinhas do Porto da Manga, desmembrado em longas jornadas de trabalho e cuidado familiar, além das condições precárias de assistência médica e moradia.

Quem anda nos trilhos é trem de ferro,

sou água que corre entre pedras:

liberdade caça jeito.

— Manoel de Barros

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